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“Comecei a compreender que não havia nenhum meio de retificar a imagem de minha pessoa, desqualificada por um tribunal supremo dos destinos humanos; compreendi que essa imagem (mesmo sendo pouco verdadeira) era infinitamente mais real do que eu mesmo; que ela não era de maneira alguma minha sombra, mas que eu era a sombra de minha imagem; que não era possível acusá-la de não se parecer comigo, mas que era eu o culpado dessa falta de semelhança, enfim, era minha cruz, cruz que eu não poderia confiar a ninguém e que eu estava condenado a carregar.”

(Milan Kundera - A Brincadeira - 1967)


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“Uma onda de raiva contra mim mesmo me inundou, raiva contra minha idade de então, contra a estúpida ‘idade lírica’, em que somos a nossos olhos um enigma grande demais para que possamos nos interessar pelos outros enigmas que estão fora de nós, em que os outros (mesmo os mais amados) são apenas espelhos móveis onde encontramos, espantados, a imagem de nosso próprio sentimento, de nossa própria emoção, de nosso próprio valor.”

(Milan Kundera - A Brincadeira - 1967)


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“a maioria das pessoas se entrega à miragem de uma dupla crença: acredita na ‘perenidade da memória’ (dos homens, das coisas, dos atos, das nações) e na ‘possibilidade de reparar’ (os atos, os erros, os pecados, as injustiças). Uma é tão falsa quanto a outra. A verdade se situa justamente no oposto: tudo será esquecido e nada será reparado. O papel da reparação (tanto pela vingança quanto pelo perdão) será representado pelo esquecimento. Ninguém irá reparar as injustiças cometidas, mas todas as injustiças serão esquecidas.”

(Milan Kundera - A brincadeira - 1967)


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Havia uma educação no meio do caminho
13. July. 2009 @ 6:51


Havia uma pedra no meio do caminho,

No meio do caminho, havia uma pedra.

No oitavo dia,

perdi minhas botas

nas pedras do caminho.

O status quo busca sequência dentro do contexto econômico vigente e cultural. Consumir como característica do homem é um dogma enraizado dentro de uma percepção de mundo mais superficial e que se sobrepõe a muitas outras dentro da ideologia capitalista. Consumimos a cada momento no dia a dia e, chega-se ao ponto até de colocar como sinônimo de cidadania lutar pelos direitos do consumidor perante a qualidade de produtos e serviços. A relação entre pessoas materializada pelo fetichismo da mercadoria e a superficialidade do lucro e da mais valia descaracteriza o homem como ser humano dotado de valores ao próximo não apenas pelo relacionamento frio do momento do consumo tecnicamente dirimido por técnicas de vendas e comunicação mas, principalmente pela estrutura capitalista e a necessidade de mão de obra abundante para manter o custo da mesma num tom sadio aos empreendedores e capitalistas. O lumpem envergonha os direitos do homem aos preceitos básicos da cidadania e da existência; lazer virou item de fetiche de dispêndio de tempo quando se não está na labuta; relaxar ao som de blues virou adorno e transpor a cultura e o senso comum é moeda de poucos. O sistema vigente emerge como cultura alienante fortemente enraizada rumo a uma busca pela riqueza e acumulação de mercadorias ou capital.

O homem como ser social por natureza precede esse dogma capitalista e sua curiosidade e dialética sempre buscaram, até mesmo pelo método cientifico e aristotélico da tese e antítese constituem uma fundamentação prática de busca do conhecimento. A educação é um meio utilizado para buscar de modo reconhecidamente valoroso a sabedoria e conhecimento. Inerente ao tempo histórico os agrupamentos mantém suas doutrinas e crenças através da educação de geração em geração. István Mészáros coloca a educação como o meio mais oportuno para que o homem ultrapasse a barreira alienante que o sistema capitalista os coloca. A educação agiria auxiliando o homem a expandir sua percepção e compreensão do mundo, elevando-o a detentor de um senso crítico e politicamente posicionado. Entretanto, a própria educação virou moeda de troca, principalmente na Era da informação e é relevante perceber que os meios que determinam a educação são semelhantes aos que alienam os indivíduos, daí a crise na educação; a educação na atualidade é a interiorização das condições de legitimidade do sistema capital. O método ou a empiricidade das informações se colocam em xeque.

Instaurar condições críticas e reflexivas para que o individuo tenha capacidade para modificar sua realidade de modo não podado pelo status quo e apregoado pela indústria cultural. Expandir e abrir as janelas da percepção, afirmadas por Rimbaud, através da educação e do conceito proposto por Mészáros é um modo de não cair em ou antever pedras pelo meio do caminho rumo ao submarino amarelo.

Para se compreender outra pedra no meio do caminho podemos fazer alusão ao príncipe eletrônico, um intelectual coletivo e orgânico de estruturas e blocos de poder agindo como uma indústria de manipulação de consciências surgindo pelas tecnologias emergentes. O potencial de influência desses meios potencializado pela segmentação do processo de trabalho e a ausência de lazer e dos direitos da cidadania não praticados ou não empíricos na vida de um ser, possui, como virtual potência: alienar-se. Daí, as mulheres que ofendem ou confundem atrizes/atores com suas personagens em telenovelas ou, de modo mais crítico, a confusão entre o real e o encenado, a beleza mostrada pelo meio como item longínquo e inatingível.

Já é de hoje que neutralidade dos meios de informação tornou-se apenas um item, uma ferramenta dentro das técnicas sociais de atuação da mídia: podendo ou não ser praticada. Do modo como o social coletivo é crítico, é capaz de se perder as botas no máximo no oitavo dia nas pedras do meio do caminho. Sendo assim, o príncipe eletrônico, segundo Octavio Ianni, é uma figura política nova, tendo como tabuleiro o controle indireto com resultados eficazes e bastante oculto. Até mesmo Charles Dickens navegando o Titanic naufragaria nessas águas calmas que são o tabuleiro do jogo.

Mészáros, em seu livro, A Educação para além do Capital, oferta que é inviável transformar os valores da educação em voga sem alterar o sistema. Inexistiria um modelo/método de mudança gradual corroborante com os preceitos do capital e da diferenciação de classes. A especialização na construção do conhecimento torna-se um dos pontos basilares dentro dos preceitos do capital que se interpõem a educação e seu álibi expansionista. A segmentação da produção desconfigura o conhecimento do processo geral e adiciona uma negação a educação para obter uma entrada no mercado de trabalho rapidamente, não apenas na era da revolução industrial mas também através dos ensinos técnicos. Entretanto, a educação é apenas um dos pontos que mantém o sistema e, sozinha, não possui condições de o fazer. Afinal, a desigualdade entre as classes também existe. Alterar o sistema através apenas da educação formal é sonho e ideologia vazia.

Buscar uma educação para além do capital é ultrapassar limites impostos na atualidade, uma mudança radical nos valores inseridos na educação contemporânea são adendos essenciais. O problema é que isso caracterizaria uma ruptura no processo do sistema ao não preparar o indivíduo para a demanda de mão de obra. A educação proposta por Mészáros e Schiller, a Educação Estética, somente seria possível com um impacto na alienação do trabalho e uma difusão bastante grande para que possam ser apregoados novos valores, afinal, somente a universalização da educação e a universalização do trabalho não podem caminhar esbarrando em todos, ao contrário, precisam caminhar lado a lado.

Milan Kundera, escritor tcheco erradicado de sua nação, nos propõe a clarividência conceitual entre estrada e caminho. Estrada consistiria apenas um pedaço de perda de tempo entre dois pontos e, mesmo que haja um ponto interessante em seu intercurso, mesmo assim, continuaria a ser um pedaço de perda de tempo entre dois pontos mas com um pequena ilha de beleza. Já o caminho consiste num constante chamado do real: “Pare!”, todo o intercurso torna-se beleza. Esse conceito pode ser aplicado ao ideário do jovem que oferta sua mão de obra sonhando com o Golden Watch de quando se aposentar, não há Soldado que não almeje e trabalhe para se tornar um General e não há Office-boy que pretenda continuar a sê-lo. A solução para isso não é apenas com uma reforma estudantil trilhada por um caminho como também uma alteração na engrenagem toda do sistema que, na era dos bytes, ainda é mecânica e sua virtú é o petróleo.

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A idéia por trás deste blog é ilustrar em torno do que elucubra por natureza e imediatamente apetece. Demonstrar através de beings, imagens e pensamentos, um olhar lúdico que por um espasmo surge com criatividade. O objetivo é tirar do senso, desrobotizar padrões e comportamentos, colidir a cultura de massa, iluminar tendências 1 e 2.0, suscitar o design como arte, a música como expressão e não produto e, por fim, apresentar minha entrega à poiesis.
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